5.7.10

Não sou argentino, mas odeio futebol

Preciso contar que queria seguir alguém desde que era uma caloura perdida e nem sabia o que estava fazendo no primeiro semestre da faculdade de jornalismo. Uma veterana comentou sobre o exercício e fiquei com muita vontade de achar alguém interessante na rua e escrever a partir dessa experiência.

Saí meio atrasada de casa porque ninguém consegue acordar cedo num sábado sem compromissos. No ponto de ônibus, percebi que chegaria ao centro da cidade pra lá de meio-dia e fiquei ansiosa, com medo de já encontrar o centro se esvaziando. Chegou o ônibus, a beira-mar parecia não acabar nunca, mas eu já ia reparando nas pessoas pra me acostumar a observar cada detalhe. Acho que eu queria ver se conseguia me concentrar numa pessoa sem ela estar conversando comigo em vez de me render aos pensamentos que me lembravam do namorado, da minha cidade ou do tanto de coisa que eu sempre tenho que ler.

Como vou saber que devo seguir alguém?, foi o que pensei quando cheguei ao meu destino. Felipe Schmidt, Conselheiro Mafra, nem sei se já decorei os nomes dessas ruas de comércio, mas percebi que andando por ali só encontraria pessoas fazendo compras. Não queria isso. Me distanciei e foi pro lado do Mercado Público que me frustrei pela primeira vez. Perdi um casal de velhinhos. Eu que tenho 18 anos e que usava meus óculos justamente pra conseguir enxergar tudo, perdi de vista um casal de velhinhos que andavam a passos bem miúdos e de braços dados. Depois, deixei de seguir um anão, acompanhei por uns dez minutos um guri de uns 13 anos carregando uma bolsa pesada, comprando um lanche e indo pra loja da família, segui um gordinho com um exercício de matemática na mão que foi direto pro Ticen e, por fim, segui uma garota apressada que se enfiou por ruas do Centro que eu nem imaginava que existiam. Ela me chamou atenção porque deu um sorrisinho rápido pro Museu Histórico. Andava bem rápido e mostrava confiança nos passos, parecia fazer aquele caminho muitas vezes. Logo tirou o moletom porque o sol quente não parecia um sol de junho e tentou prender os cabelos, mas o coque se desfez depressa e a jovem deixou os cabelos castanhos e um tanto ondulados caírem no meio das costas, se balançando com os movimentos que ela fazia. Praticamente corri atrás daquela garota, que apenas me levou até a casa dela. Tirou as chaves da bolsa preta que carregava, abriu o portão de ferro e sumiu atrás da porta de vidro que dava para o hall do prédio. Se havia alguém me seguindo, dei o mesmo final pra crônica alheia. Sumi por trás da porta de vidro, subi um lance de escada e voltei pra casa.

Sem achar tempo livre pra me dedicar a observar a multidão e achar meu personagem, ele acabou vindo até mim. Era o último jogo do Brasil nessa copa – mas eu ainda não sabia disso, é claro – e eu assistia ao fracasso de Dunga num bar da Trindade com os amigos da faculdade. Chegamos em cima da hora, como sempre, e ficamos numa mesa péssima. Eu tinha que ver a TV de ladinho e toda hora alguém ficava na nossa frente. Primeiro tempo, estávamos mais confiantes que o vestibulando que não estudou a vida inteira, mas se inscreveu pra biblioteconomia. Nem ele e nem a gente sabia que seria capaz de tirar uma nota tão baixa na redação. Intervalo. O bar inteiro fez a felicidade do dono do estabelecimento ao se empanturrar no bufê do almoço. A partida estava quase recomeçando quando um garçom me deixou morrendo de raiva por tirar minha bolsa e moletom de uma cadeira vazia pra levá-la a uma mesa que ele inventou de colocar bem na minha frente. Xinguei mentalmente aquele cara que podia ao menos ter pedido um “com licença”, mas relevei. Sempre relevo.

Um casal simpático sentou naquela mesa maldita, mas não demoraram nada. Foram só pra almoçar mesmo. Jogo vai, jabulani vem e chegou outro cara pra sentar à mesa em frente a nossa. Chegou todo educado com seu cabelo de cuia partido ao meio e perguntou se poderia sentar ali. Tudo bem, fazer o que, sorrimos amarelo. Ele escolheu o lugar de costas para a TV e matou o que o estava matando.

Hmmm, onde almoçar hoje? Que merda, jogo da seleção, não vou encontrar um lugar nessa cidade sem vuzuzelas e sem torcedores insuportáveis. Ok, ok, Frango e Fritas mesmo que já estou aqui perto. Sem nem lugar pra estacionar minha moto direito, imagino como vai estar lá dentro. Ufa, me deixaram entrar. A comida parece boa. Pelo menos com esses jogos fazem uns pratos diferentes. Tá, onde vou sentar? Fico com o primeiro lugar vago que achar, não importa onde. Opa, uma mesa pequena, nem quero olhar a TV, é aqui mesmo. Frango, frango, frango, arroz, ostra gratinada. GOL, GOL, GOL, GOL, o bar não para de gritar isso. A bola deve estar no meio de campo ainda e esses empolgados tão aí gritando como se a vida dependesse disso. Respira fundo, cara. Você não precisa mostrar que odeia tudo isso. Vive o teu dia e deu. Eu consigo entrar em alfa, esquecer o mundo à minha volta, fazer tudo isso muito rápido pra não me atrasar no almoço e vou levantar pra pegar a sobremesa grátis sem nem dar uma olhadinha nessa TV maldita. É assim que se cala o Galvão, ouvindo a mim mesmo quando esse chato fica gritando na Globo. Adoro essa sobremesa de morango. É daquelas de caixinha tipo gelatina, eu fazia muito antes de morar sozinho. Ih, os caras da mesa pararam de falar quando eu cheguei perto. Cara, esquece essa mania de perseguição, estão prestando atenção nesse bando de jogador de camisa amarela. Ah, não, merda, esses caras invocaram com as vuvuzelas agora. Até o morango perde o gosto. Tchau, sobremesa.

Não foram nem 15 minutos que o homem com cara de bonzinho, mas com um péssimo gosto pra penteado, ficou na mesa que chamei de maldita ainda agora. 15 minutos que nos fizeram comentar sobre ele na hora que ele foi buscar a sobremesa e depois de ir embora. Realmente tão rápido que ele saiu antes mesmo dos gols da Holanda e de ficarmos mais inseguros que vestibulandos de medicina em dia de divulgação de resultado.

E, sabe, é mais fácil achar que ele realmente odeia futebol e a copa do mundo com todas as forças do que ignorar tudo isso. Nenhum brasileiro ignora futebol. E eu, como toda boa mulher, acha pior ignorar que odiar. Ainda cogitei a possibilidade do meu personagem ser argentino. Mas, se fosse, teria dado uma olhadinha só pra praguear a seleção brasileira. Não que precisássemos, né.

p.s.: Não queria fazer um texto onde aparecesse o exercício de seguir alguém, mas foi o que saiu. E acabei me empolgando, escrevi demais.

3.7.10

Poxa, Brasil!

Assisti à estreia da seleção brasileira nessa copa num bar com os amigos. De última hora, percebemos que todos os bares do entorno da faculdade estavam apinhados de gente e mudamos de destino. Cheguei na hora do hino. Realmente não sou muito de futebol. Gosto de assistir de vez em quando, mas não grito, fico na minha. Durante a partida, percebi que a minha primeira copa fora de casa seria com os amigos do curso, quebrando o expediente das aulas ou do estágio para ir ao bar e vendo a UFSC inteira parar quando os brasileiros estavam em campo.

Minha relação com a copa da África do Sul começou mais de mês antes com o álbum de figurinhas online disponível no site da Fifa. Todos os dias, três pacotes com cinco figurinhas cada para colar no meu álbum em versão flash. Podíamos trocar as figurinhas entre os outros desocupados que também estavam participando. Do meu grupo de amigos, fui a segunda a completar o álbum. A última figurinha foi o Lúcio, do Brasil, que tanto apareceu nos nossos jogos.


No segundo jogo, acabei ficando em casa porque tinha que lavar roupa (sim!). Acabei contando sobre o terceiro no post passado. A quarta partida coincidiu com a visita de mamãe e padrasto à Floripa e vimos juntos. E, hoje, com a camiseta do Brasil comprada recentemente, dei gritinhos esperando que a nossa seleção virasse o placar no segundo tempo. Não posso dizer que fiquei mais triste do que eu esperava porque realmente não cogitei a possibilidade de sermos desclassificados pela Holanda. Esqueci do meu ódio por vuvuzelas, era muito emocionante todo o bar gritando e pedindo "Gol, gol, gol, gol... !" quando nossos jogadores corriam pelo campo do adversário. Levantei antes do árbitro terminar a partida e fui pagar a conta para evitar uma fila quilométrica no caixa do bar e antes mesmo de ser atendida, perguntei ao namorado "Acabou mesmo o jogo?" numa esperança de que ele respondesse que teríamos outra chance só porque somos o Brasil. Mas isso não existe. E, sim, acabou.

Não pude deixar de ficar ainda mais triste pela derrota na copa dos meus amigos da faculdade. Não tenho a menor ideia de onde vou estar em 2014 e nem das pessoas que vão assistir aos jogos comigo. Tudo isso porque acompanhei a saga de posts do Championship Vinyl sobre as copas do mundo que ele já viveu.

"Minha obsessão com a Copa é puramente emocional.

A cada quatro anos, existe um mês, um único mês, em que eu abandono todos os meus heróis, sejam eles dos cinemas, da música, ou dos quadrinhos, e venero somente aqueles poucos heróis (e odeio com esta mesma intensidade alguns dos vilões) que correm por aquele gramado. Entrego minha felicidade a eles e, justamente na busca por esta felicidade, choro, rio, faço promessas, tenho superstições, abraços pessoas que acabei de conhecer e grito. Grito com força, tudo aquilo que esperei quatro anos para gritar.

Ao mesmo tempo, acompanho todos os jogos, anoto resultados em tabelas, faço projeções e adivinhações, estudo escalações, táticas e revejo gols, sabendo que tive a sorte de assistir a lances que pessoas que serão lembrados daqui a muito, muito tempo.

A cada quatro anos, existe um mês, um único mês em que nada mais existe para mim
." (Trecho da introdução à saga).

E andando pra faculdade depois da eliminação, lembrei do post do Antonio Prata que li ontem. Era um relato de uma conversa pelo telefone com o pai, Mário Prata.

- Tá gostando da seleção, pai?
- Tô torcendo contra.
- Por que?!
- Meu filho, a gente vai ter que passar os próximos quatro anos vendo a Dilma ou o Serra, todo dia, no jornal e na televisão. Além disso, o Dunga?! Tem que pensar nessas coisas…

26.6.10

Bastidores de uma aspirante

Resolvi parar de ser mentirosa e finalmente coloquei o jornalismo como um dos assuntos do blog. Desculpa, mas eu amo meu curso e não consigo parar de falar sobre isso. Pra começar esse tempo de sinceridade e sem peso na consciência pra estar falando mais uma vez sobre faculdade, vou falar sobre o hoje.

Você que acha que a vida de estudante de jornalismo é facil e que só fazemos trabalhos legais, é porque nunca tentou falar com alguém razoavelmente importante e perceber a falta de credibilidade que você passa quando diz ser um (a) estudante de jornalismo. E, pior, ter que desconversar quando a pessoa pergunta onde vai ser publicado/exibido/transmitido. Com que cara falar pra uma fonte que você está só fazendo um exercício pra aula?

Tá, esse ano tenho um estágio (ou uma bolsa de extensão). Escrevo reportagens para um portal online de jornalismo científico com conteúdo sobre a UFSC. Não coloco o link porque o wordpress ou qualquer serviço do tipo denunciaria meu blog para a minha chefe. Não seria legal. Enfim, A chefa me escalou para uma pauta sobre um programa pioneiro de pós-graduação multicêntrico. Passei o ontem entrevistando minhas fontes e teria que acompanhar a mesa-redonda sobre o curso e entrevistar um dos convidados, professor da USP. E, bem, o evento foi hoje. De manhã. Das nove às onze e meia. Compareceram 15 pessoas (incluindo eu e a jornalista da agência de comunicação da universidade). Tive que esperar um século pra entrevistar o professor visitante e enquanto esperava, só escutava os gritos, fogos e vuvuzelas de quem acompanhava o jogo do Brasil perto do auditório.

Cheguei a tempo de ver o finalzinho do primeiro tempo em pé na lanchonete do prédio onde estudo. No intervalo, tentei ir até a sala onde trabalho e descobri que com a suspensão do expediente por causa do jogo, haviam trancado o corredor onde fica a minha sala. Gravador, caderno, caneta e celular sem crédito em mão. Dinheiro, carteira, casaco e o resto da minha vida trancados até sabe lá que horas. Almocei graças a dois amigos que tinham ido aleatoriamente para a faculdade vazia de uma sexta-feira com o extra de um jogo da seleção.

21.6.10

Vou xingar muito no twitter

O CALA BOCA GALVÃO foi engraçado, rendeu boas piadas, assunto no bar e todo o resto. Ainda houve uma tentativa de fazer algo parecido com a Geyse Arruda, mas - enfim - não deu certo. Agora com toda essa polêmica envolvendo o nosso técnico Dunga e os jornalistas da Globo, não se fala em outra coisa e sempre vejo na minha timeline alguém mandando o Tadeu Schmidt calar a boca. Tudo isso só me faz lembrar do quanto todas essas pessoas que hoje reclamam do Galvão, da Geyse, do Tadeu fizeram graça com os fãs da banda Hori - "família Restart" - porque um guri falou numa entrevista que iria xingar muito no twitter. E essas pessoas não estão fazendo exatamente isso? Xingando o narrador esportivo mais famoso do Brasil (deve haver alguém que goste), xingando a Globo, xingando os jornalistas, xingando os próprios brasileiros que se ocupam com os trending topics e nem ligam para o aumento dos salários dos senadores. Resumindo: todo mundo xingando muito no twitter. Puta falta de sacanagem.

20.6.10

Péssima perseguidora

A professora de Estética e Cultura de Massa finalmente passou o exercício clássico da disciplina que eu ouvi falar ainda no meu primeiro período quando meus veteranos tiveram que fazer. Simplesmente temos que seguir alguém na rua - sem ser vistos - e escrever uma crônica sobre isso. Li o conto "O Homem da Multidão" do Edgar Allan Poe, recomendado pela professora, peguei ônibus num sábado de manhã e fui para o centro da cidade.

Andei, andei e percebi que estava muito em ruas de comércio. Que só ia encontrar pessoas fazendo compras. Me distanciei, fui pro lado do Mercado Público e contei quantas pessoas usavam blue jeans numa amostra de 100. Foram 64. E aí vi uma velhinha idêntica a Suzana Amaral, diretora do filme "Hotel Atlântico" (que eu assisti na sexta). Ela andava bem devagar de braço dado com um velhinho e fui segui-los. Entraram no Mercado, esperei um pouco e entrei também, percebendo que eles haviam parado na primeira banca de peixe. Esperei um pouco, tentei disfarçar e quando voltei a olhá-los, tinham sumido. Sim, eu consegui perder dois velhinhos que andavam super devagar. Entendem o título do post agora?

Resolvi voltar pra saída do Ticen (terminal de ônibus do centro) e ver se saía alguém interessante. Passou um anão, cogitei a possibilidade, titubeei, desisti. Em seguida, reparei num menino de uns 12 anos que carregava uma bolsa pesada. Comecei a segui-lo, ele andou, andou e chegou numa loja de roupas femininas. Será que é da mãe dele?, pensei. Saiu de lá sem a bolsa e foi para uma lanchonete. Esperei e ele apareceu segurando um sanduíche e voltou pra tal loja. Ok, fail. Fui para a praça XV de Novembro e, no caminho, não resisti a uma placa do Mc Donald's. Almocei lá e fui tentar achar alguém legal. Perto do Museu Histórico, reparei numa menina que tava com uma cara bem feliz. Fui atrás dela. Ela estava praticamente correndo por umas ruas que nunca tinha passado antes. Chegamos na avenida Mauro Ramos e ela entrou num apartamento usando chave. Legal, segui alguém indo pra casa.

Peguei ônibus pra voltar pra casa, mas acabei voltando pro Ticen. Ainda fiquei uns bons momentos sentada num banco perto da saída do terminal vendo se ninguém interessante passava. Não passou.

14.6.10

Destinos: Nova Iorque

Hoje, 13 de junho de 2010, estou sim voltando ao blog. Não posto direito desde abril e sinto que perdi de abordar grandes assuntos nesse período. Não falei sobre o dia do trote nos meus calouros (que foi em março, mas enfim), nem sobre a primeira manifestação que eu fui (o primeiro grande ato contra o aumento da passagem de ônibus daqui de Floripa), sobre quando conheci o interior de Santa Catarina (Fraiburgo, a cidade do meu namorado), nem sobre a primeira vez que comi fondue, nunca falei mal sobre as meninas que dividem apartamento comigo e nem vim contar sobre o dia dos namorados perfeito que tive ontem.

A revista Destinos é o meu trabalho final pra disciplina de Planejamento Gráfico que, sinceramente, é a única matéria puxada da terceira fase do meu curso. É nessa cadeira que aprendemos a diagramar: temos 2 meses de exercício prático em sala (diagramando páginas de jornais: standart, berliner, tablóide) e temos que entregar essa revista de 20 páginas de tema segmentado. Escolhi viagens pra dar um migué, mas todas as páginas são sobre New York. Ah, o que interessa é a diagramação, então todos os textos são falsos. Só editamos a capa, o sumário e os títulos pra revista fazer algum sentido.

E vocês não tem ideia do trabalho que essas 20 páginas me deram: conseguir fotos (em alta resolução), fazer o boneco da revista (planejar as matérias fake), escolher tipografia, criar um projeto gráfico, forçar o cérebro a parir diagramações criativas. Sem contar que eu comecei com o tema "noivas" e mudei porque era impossível conseguir fotos boas na qualidade adequada pra impressão. Trabalhei muito muito muito nesse projeto pra ter orgulho dele no final. E, bem, estou muito coruja. Não vejo a hora do professor devolver a revista impressa (que me custou mais de 40 reais contando com os testes).


9.6.10

Na madrugada

Que vontade de postar, assuntos não param de aparecer aqui no meu cérebro maranhense. Mas procrastinei,  procrastinei e agora preciso dormir pra aula de amanhã. Boa noite e volto com o blog direitinho no final de semana.