
Nunca tinha ouvido falar de Reinaldo Moraes e nem do livro Pornopopeia. No máximo, confundi com o Pornopolítica do Arnaldo Jabor. Comecei a leitura e dei de cara com um cineasta decadente, viciado em drogas, bêbado, com um casamento falido e muitas dívidas a pagar. A chance de voltar a ganhar dinheiro era com um vídeo institucional para uma empresa de embutidos de frango. Durante muitas páginas, Zeca, um quarentão que nem chegou a estudar Cinema direito, fica procrastinando fazer esse roteiro. Bebida, ligar para o traficante, ler e-mails, marturbação, dar uma passadinha na Augusta, tudo é motivo para não começar a escrever. Some a isso um amigo sessentão que adora sair para trair a mulher e um hippie que toca harpa e leva o Zeca a uma "autêntica surubrâmane Zebuh-bhagadhagadhoga" (não pergunte). Esse ritual secreto só pode ser o acontecimento da vida do protagonista. Foi narrado em detalhes e, depois de voltar, o Zeca resolveu colocar a sua história no papel com a intenção de que pudesse virar um bom roteiro de um longa. O livro é todo narrado em estilo de diário não-linear, como se o personagem principal estivesse conversando com um editor de livros.
A primeira metade da história se resume a esse ciclo: Zeca quer se inspirar quimicamente para o roteiro e pede ao traficante para trazer mais droga. Ele fica tão louco que vai visitar prostitutas ou sai para encher a cara. Hiberna, acorda acabado de ressaca e pede mais droga/fuma um baseado para se inspirar e... Até que o traficante é atingido durante um tiroteio entre policiais e o PCC. Na frente da produtora do Zeca, que por acaso estava dentro do carro esperando receber uma peteca de cocaína. E é claro que depois que isso acontece na sua vida você foge para o litoral paulistano, na casa de praia de um amigo. A partir daí, José Carlos, fugitivo da polícia, tem uma vida de banhos de mar, corridas na areia e flertar com a dona de uma pousada local para conseguir free hospedagens e refeições.
Pornopopeia tem uma linguagem viciante. Bem do tipo que te faz sentar no terminal de ônibus e terminar o capítulo antes de andar para o estágio ou para casa. Mas não gostei. E não foi porque o Zeca é um machista ridículo, que fala cada coisa desnecessária (como soltar um barro antes de voltar a escrever sua história), irresponsável, que só continua com a mulher porque é sustentado pelo cunhado. Foi porque ele não existe. Em 660 páginas, não consegui imaginar um Zeca real. Tudo bem que estou viciada nessa coisa de efeito de real que aprendi na aula de redação de um jornalismo mais literário, mas um cara que mal toma banho e só se relaciona bem com traficantes e putas não é alguém que seduz pobres caiçaras das praias paulistanas e nem mulheres na menopausa só porque tem olhos azuis. Sem contar que se fosse para enviar um roteiro plagiando um comercial que o próprio Zeca já tinha produzido, não precisava demorar cinco dias para pensar nessa saída, hein. E olha que eu nem tenho tantos anos de procrastinação.
Zeca não convence como cineasta, nem como garanhão e nem como pai. Apesar das tentativas de Reinaldo Moraes resgatar a memória do Pedrinho, filho do protagonista com a esposa, em alguns momentos da trama. Pornopopeia não convence. Nem a Lia, a mulher traída. Ainda que ela seja a personagem mais legal da história por ser professora de ciência política e ter arranjado um amante bonitão. Mas quem ficaria tanto tempo sem pedir o divórcio e deixaria o irmão sustentar o marido fracassado? Olhos azuis não fazem tantos milagres.