4.1.11

A alma das ruas

A primeira
Da última vez que passei pela rua 2 - meu antigo bairro era dividido em ruas de números e ruas de planetas - foi para me emocionar. A casa 18, a minha, estava amarela, com outro jardim, outro muro, outros donos. Quantas vezes subi a primeira ladeira da minha vida para comprar guaraná jesus no mercado que mudava de nome a cada cinco anos. Quantas vezes ficava sentada na calçada vendo meus vizinhos brincarem de queimado ou vôlei, já que eu era a mais nova e não podia participar dos jogos. Lembro de quando me ralei inteira descendo a rua de patinete e das vezes que passeei com meu primeiro cachorro. No fim, subia para pegar ônibus e descia morrendo de medo de ser assaltada na esquina.

O morro
Passei meu primeiro ano em Floripa morando num pensionato que ficava quase no topo da ladeira mais íngreme que eu já subi à pé. O medo de altura me deixava meio tonta na subida e morria de medo de cair. Pois foi na descida que eu estive prestes a rolar ladeira abaixo e me quebrar inteira. Por sorte, das vezes que caí não virei rolinho primavera. Foram duas. Uma vez escorreguei na areia, a outra foi na água da chuva mesmo. Encarava aquela rua como um desafio. Demorei vários meses até ter coragem e disposição de subi-la e descê-la mais que uma vez por dia.

A queridinha
Minha rua atual de Floripa não é só minha. É também de metade da UFSC. Essa tem uma alma mais pública, as outras eram mais intimistas. A do morro nem saída tinha. Antes das 8 da manhã, vou junto com os universitários-padrão e volto com alguns deles lá pelas seis da tarde. Bares estrategicamente posicionados para não faltar oferta, assim como as barraquinhas de cachorro-quente. Quem mora longe do supermercado, escolhe seu mercadinho favorito. O meu é o do Chico, que tem uns tomates bem bonitos, mas não vende carne. O maior movimento é às 21h55, quando percebemos que as portas não vão nos esperar abertas até resolvermos sair de casa. A maioria fecha às 22h, quando o movimento vai adormecendo até chegar o outro dia e de novo o fluxo de pessoas parecidas, a maioria usando moletons de cursos, caminhando por curvas fechadas, uma ladeira discreta, alguns cruzamentos e o buraco que ficou na calçada depois que retiraram um poste. E é claro que isso foi no meu lado preferido da calçada.

Ainda não posso terminar esse post sem falar da Rua Grande, a principal rua de comércio aqui de São Luís. Vou lá desde pequena e foi nela que vivi meus primeiros aglomerados urbanos, enquanto os vendedores gritavam promoções em microfones e vez em quando eu tropeçava num paralelepípedo. A Beira-mar de Floripa que me denuncia como turista toda vez que prefiro sentar na parte ensolarada do ônibus só para reparar de novo no litoral. E a Paulista, ah a Paulista... me deixou sem palavras da primeira vez que eu fui lá. Mas quem disse que sei o que falar dela agora?

Crônicas de João do Rio, pseudônimo de Paulo Barreto, sobre o Rio de Janeiro no início do período republicano. "A cosmópolis num caleidoscópio". Assim meio poético, às vezes o autor faz uma verdadeira ode a um aspecto da vida popular. Tem uma temática meio Gay Talese de vez em quando, principalmente quando vai falar dos estivadores.

"Em São Luís do Maranhão há uma rua sonâmbula muito menos cacete que a ópera célebre do mesmo nome. Essa rua é a rua de Santa Ana, a lady Macbeth da topografia. Deu-se lá um crime horrível. Às dez horas, a rua cai em estado sonambúlico e é só gritos, clamores: sangue! sangue!"
A rua de Santana eu conheço, só falta descobrir desse crime.

3 comentários:

Tary disse...

Incrível como certos lugares se tornam importantes em nossas vidas e nunca saem das nossas memórias. Amei seu layout, Luh! Beijos

Rúvila Magalhães disse...

Siim, a Avenida Paulista é um lugar a parte no meio de São Paulo, um outro universo.
Uma das ruas mais marcantes para mim é a que leva à minha antiga escola, rua Jorge Miranda. Em uma determinada época do ano tinha muito sol e as flores das árvores caiam no chão e formavam um tapete. É lindo.

Beijos

Mel disse...

Achei este post super poético! Deu vontade de conhecer todas as ruas que vc citou.
Beijocas.