Chega aquele momento super empolgante que falo sobre o início do semestre e as disciplinas novas, deixando de fora a parte super chata que são os novos calouros e festas universitárias de quarta a domingo. É, gente, quinto semestre, meus calouros têm calouros, sou vó e faltam dois anos de graduação! Deveria fazer cinco matérias obrigatórias, mas estou só com duas. Uma foi adiantada ano passado e resolvi atrasar as outras duas porque andava meio desestimulada com o curso. Esses professores eram ruins e minha situação só ia piorar. E assim também pude me encher de disciplinas optativas.
Teoria da comunicação II (opt)
Me despedi do ano passado falando que "Adorno nunca mais", mas me matriculei nessa matéria, que é continuação daquela que me fez ler esse alemão querido. Tudo isso porque o professor é realmente bom e não podia perder de ganhar o conhecimento que ele tem pra passar pra gente. Vamos estudar uns textos aleatórios tipo Freud, Lévy, Bordieu, entre outros. Começamos falando sobre moderninade e pós-modernidade, a aula de ontem foi sobre interpretações do livro Fausto, de Goethe. Muito amor.
Teoria do jornalismo (obg)
O professor dá uma aula meio monótona, mas o assunto é interessante. Melhor que estudar as teorias da comunicação, que é um tema muito amplo, é estudar o que está mais próximo da gente. As aulas tendem a melhorar porque ainda estamos naquela velha introdução sobre jornalismo (calouros feelings).
Antropologia social I (opt)
Roubada do curso de Serviço Social, é ministrada por uma argentina engraçada que fala portunhol. Essa disciplina é muito "aprenda o que é antropologia", com uma carga leve de leitura e discussões interessantes sobre cultura, preconceito e racismo. Ah, minha vontade de ciências sociais...
Jornalismo econômico (opt)
Quem dá essa aula é um professor visitante da UnB super legal que propõe discussões pertinentes e sugere textos ótimos. Sempre tive vontade de conhecer essa área e não vejo a hora de me familiarizar com conceitos básicos de economia e entender mais um pouco sobre.
Redação V (obg)
Provavelmente vai ser uma das redações mais divertidas do curso, vamos deixar a notícia clássica de lado e enveredar pra reportagens mais elaboradas, perfis, crônicas (quem sabe) e produzir uma revista-laboratório no final do semestre com nossos textos e diagramação (oba!). O que me amedronta é parte da avaliação: conseguir uma nota exclusiva! Onde, josé?!
Telejornalismo II (opt)
Professor novo no curso, louco e carioca, tem experiência como correspondente internacional... Meio pirado, faz umas piadas idiotas, fala e se repete pelos cotovelos, mas na parte prática da aula sempre dá um jeito de não nos deixar desistir da disciplina (eu e minha amiga pensamos isso toda quinta-feira). Aula intimista só com seis pessoas (que nem a de teoria da comunicação, na verdade).
29.3.11
26.3.11
A dialética perdida
A leitura de O dia em que Getúlio matou Allende tá bem devagar por causa de todo o frisson de início das aulas, mudanças de estágio e festas universitárias. Confesso que também tive preguiça do livro com a parte longa destinada a Getúlio Vargas e todas suas relações de poder. Uma coisa é Capote descrevendo a personalidade e até adivinhando os pensamentos dos assassinos em A sangue frio, outra é um jornalista que nunca tinha ouvido falar antes dizendo o que diabos Getúlio pensou e fez nos momentos antes do suicídio. Tive preguiça. De qualquer forma, a leitura está sendo uma revisão boa de parte da história política brasileira. Quero só ver a parte internacional com Che, Perón, Stalin e outros. E descobrir o que Frida Kahlo faz aí no meio.
"As gerações de hoje talvez tenham dificuldade em entender como o país inteiro apaixonou-se pela discussão política, meio século atrás, e como, no debate de ontem, a palavra tinha tanto poder. Hoje, as ideias políticas foram substituídas pelas imagens criadas pelas agências de publicidade, o debate político desapareceu e tudo é encenado, artificialmente recitado. Ou induzido através do subterfúgio da imagem colorida, preparada e gravada em estúdios de propaganda. Assoprado, enfim. Hoje, na televisão, no rádio ou nos jornais, quem aparece dizendo o que diz, de fato, nada diz porque apenas lê o que os outros escreveram. Agora vendem-se hábitos de consumo e é igual 'vender' o hábito de consumir um detergente ou um partido político ou um candidato.
O debate político é, hoje, quase tão-só uma simulação ou um simulacro da palavra, diferente de 1954, ou até dos seguintes anos 60, quando o peso das decisões residia no argumento ou na dialética exposta sem encenação. Agora, nem se sabe o que é dialética, e o termo soa distante, perdido nos dicionários..."
"As gerações de hoje talvez tenham dificuldade em entender como o país inteiro apaixonou-se pela discussão política, meio século atrás, e como, no debate de ontem, a palavra tinha tanto poder. Hoje, as ideias políticas foram substituídas pelas imagens criadas pelas agências de publicidade, o debate político desapareceu e tudo é encenado, artificialmente recitado. Ou induzido através do subterfúgio da imagem colorida, preparada e gravada em estúdios de propaganda. Assoprado, enfim. Hoje, na televisão, no rádio ou nos jornais, quem aparece dizendo o que diz, de fato, nada diz porque apenas lê o que os outros escreveram. Agora vendem-se hábitos de consumo e é igual 'vender' o hábito de consumir um detergente ou um partido político ou um candidato.
O debate político é, hoje, quase tão-só uma simulação ou um simulacro da palavra, diferente de 1954, ou até dos seguintes anos 60, quando o peso das decisões residia no argumento ou na dialética exposta sem encenação. Agora, nem se sabe o que é dialética, e o termo soa distante, perdido nos dicionários..."
23.3.11
Bons brasileiros
Quinta-feira da primeira semana do semestre mais teórico até agora do meu curso. O Cachorro Grande me tirou de casa porque eu já estava de ingresso comprado e devia isso para a Luisa de 14 ou 15 anos que ouvia algumas músicas deles em loop, mesmo que só as músicas famosinhas. O local era o mesmo do Vanguart e eu só conseguia pensar que estaria infinitamente mais empolgada caso fosse observar a pinta do Hélio Flandres e o cafa do Reginaldo, aquele que traiu a Clarah Averbuck em rede nacional.
Éramos um dos poucos jovens do John Bull, todos cansados e bocejantes, tomando heineken devagarinho enquanto o show atrasava mais nosso sono. Ainda com o gosto de álcool puro da tiquira roxa e maranhense, batíamos papo e identificamos o único cara interessante da casa. Claramente porque assisti ao filme Malu de Bicicleta no domingo anterior, ele me lembrava o Luís. O Luísh. O filme é uma merda, mas esse personagem vale a pena no livro do Rubens Paiva.
Movimentação perto do palco, saquei meus óculos da bolsa e lá estava o Cachorro Grande na minha frente. Eu que achava que nunca poderia assistir a um show deles, enquanto minha amiga do interior daqui pagava cinco pilas e via o Beto Bruno de boa. Até hoje não aprendi a cantar nem Cachaça, então só observava os integrantes, o Luísh do show, como ele conhecia todas as músicas, como minha amiga só conhecia a das antigas. E aí o Beto Bruno ficou louco, sumia do palco, o guitarrista teve que fazer um solo de mais de dez minutos para cobrir uma fuga do vocalista. Sinceramente foi o grand finale, depois dela um cover que nem me lembro mais. No single mais famoso deles, esqueci meus amigos. Também não fiquei só com o Cachorro Grande. Era eu, a Luisa universitária, e a Luisa de catorze sentada à frente daquele desktop jurássico ouvindo aquela música como numa montanha-russa, até chorei algumas vezes com ela naquela época. Mas não deu tempo da Luisa mais novinha me contar por quem eu ouvia aquela música, a conexão falhou, aquela tiquira não ia deixar barato pra minha memória.
17.3.11
Te conheço, carnaval
Cada um com sua caneca. Banhos involuntários de cerveja. Não dava pra pedir desculpa toda vez que você molhava alguém/esbarrava/pisava no pé bonito. Foi assim que pulei carnaval. No final da quinta noite open bar, o clube tinha um cheiro bem agradável de chulé, sensação privada das minhas narinas graças à quantidade de cloridrato da nafazolina que já ingeri nessa vida. Meu all star branco foi parar no lixo. E, sinceramente, não sou mais uma voz do discurso blogueiro contra as festas de carnaval. Quem curte minimamente sair pra festas e etc, tem que ir, precisa se jogar e ver qualé. Esse não é o seu caso se você não gosta nem dos churrascos da turma, ainda mais aqueles apenas com pão e linguiça.
Infelizmente, faltou bastante axé no meu carnaval, já que tocou pagode demais, eletrônica demais e músicas de formatura. Menina veneno, o mundo é pequeno demais pra nós dois. Imagine 659 jovens (por que não uma lotação de 660 ou 700 logo?) de diferentes abadás, numa festa open e ouvindo esse clássico.
O cansaço pós-carnaval foi tanto que só hoje tive coragem de postar, ainda não ousei pensar no próximo, mas já cogito ir também para a primeira micareta. De resto, não aprendi a andar direito em Joaçaba, interior do estado. Até hoje tenho pesadelos com a roldana de varal enferrujada que ficava ao lado do meu quarto do hotel, utilizada pela manhã, no auge da nossa ressaca. Beleza.
Se me arrependo de ter fugido do nordeste logo no primeiro carnaval pulado? Logo eu, a nordestina, a regionalista? Vou te contar, nada melhor que escapar da maizena que as pessoas ainda jogam umas nas outras.
"Melhor parar de enrolar e dizer que, na verdade, não gosto do carnaval daqui. Nem sei se gosto desse alvoroço todo do carnaval. Sei que as pessoas têm gostos diferentes mas acho estranho ver pessoas que convivem comigo saindo e se divertindo nessas tais festas carnavalescas", afirmou esta que vos posta há três anos.
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| Não bebi dessa caipirinha, minha gente |
Infelizmente, faltou bastante axé no meu carnaval, já que tocou pagode demais, eletrônica demais e músicas de formatura. Menina veneno, o mundo é pequeno demais pra nós dois. Imagine 659 jovens (por que não uma lotação de 660 ou 700 logo?) de diferentes abadás, numa festa open e ouvindo esse clássico.
O cansaço pós-carnaval foi tanto que só hoje tive coragem de postar, ainda não ousei pensar no próximo, mas já cogito ir também para a primeira micareta. De resto, não aprendi a andar direito em Joaçaba, interior do estado. Até hoje tenho pesadelos com a roldana de varal enferrujada que ficava ao lado do meu quarto do hotel, utilizada pela manhã, no auge da nossa ressaca. Beleza.
Se me arrependo de ter fugido do nordeste logo no primeiro carnaval pulado? Logo eu, a nordestina, a regionalista? Vou te contar, nada melhor que escapar da maizena que as pessoas ainda jogam umas nas outras.
"Melhor parar de enrolar e dizer que, na verdade, não gosto do carnaval daqui. Nem sei se gosto desse alvoroço todo do carnaval. Sei que as pessoas têm gostos diferentes mas acho estranho ver pessoas que convivem comigo saindo e se divertindo nessas tais festas carnavalescas", afirmou esta que vos posta há três anos.
3.3.11
Dois beijinhos
Se tem uma diferença cultural que me irrita é essa: por que em alguns estados cumprimentamos pessoas com dois beijinhos (Maranhão) e em outros nos contentamos com um (Santa Catarina)?! O resultado disso é que em São Luís deixo as pessoas no vácuo dando apenas um beijo e, quando volto a Floripa, sou eu quem fico no vácuo. Triste.
Deixei os camarões, os caranguejos, o peixe frito da praia do meio, a melhor farinha do mundo, a carne de sol, o sorvete de tapioca, todas as comidas maranhenses deliciosas e voei de volta pra terras catarinenses. Quem tiver a sorte de pousar em Floripa durante o dia, controle o sono e não faça como eu, que adormeci a aterrissagem inteira e perdi a vista bonita. Deixei também a família que me mata de saudades e os poucos amigos. E eu bem que poderia sair com esses poucos amigos por mais dois meses. Lucky, meu poodle, está deprimido porque sente minha falta (mentira de mamãe, aposto) e tenta sentir meu cheiro quando se apoia na varanda e se delicia com os cheiros da cidade inteira.
Deixei os camarões, os caranguejos, o peixe frito da praia do meio, a melhor farinha do mundo, a carne de sol, o sorvete de tapioca, todas as comidas maranhenses deliciosas e voei de volta pra terras catarinenses. Quem tiver a sorte de pousar em Floripa durante o dia, controle o sono e não faça como eu, que adormeci a aterrissagem inteira e perdi a vista bonita. Deixei também a família que me mata de saudades e os poucos amigos. E eu bem que poderia sair com esses poucos amigos por mais dois meses. Lucky, meu poodle, está deprimido porque sente minha falta (mentira de mamãe, aposto) e tenta sentir meu cheiro quando se apoia na varanda e se delicia com os cheiros da cidade inteira.
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| Pular ou não pular? Eis a questão. |
26.2.11
Meeting Jane
Finalmente não sou mais uma virgem de Jane Austen (obrigada de novo, submarino). O primeiro foi Razão e sensibilidade e achei o máximo gostar tanto de ler algo tão diferente de mim, todo aquele clima de campo, o interior da Inglaterra no século XIX (acertei?), mulheres querendo se casar e etc. Esse livro é muito, muito calmo e eu me perguntava como Jane conseguia escrever tão bem e tanto com pouquíssimos personagens, cada passo mínimo que eles davam era analisado sem ficar chato.
Em seguida, veio Orgulho e preconceito e foi nesse clássico que descobri personagens tão ricos, diálogos incríveis e que o Mr. Darcy realmente é apaixonante. Mas, na verdade, o meu personagem preferido é o Mr. Bennet. E o que eu mais adorava na leitura era perceber como Jane dava uma acelerada no tempo da narrativa com a maior graça.
"O tempo de espera agora dobrara. Teria de esperar mais quatro semanas até a chegada dos tios. Mas o tempo passou e o sr. e a sra. Gardiner, com seus quatro filhos, finalmente apareceram em Loungbourn."
24.2.11
O melhor, o maior, o único!
O que uma matéria do Diário de Pernambuco e um livro de uma professora e historiadora maranhense têm em comum? A melhor reportagem do mundo foi publicada no caderno Aurora de 20 de fevereiro (também odeio ler em formato revistinha, mas vale a pena) e trata do ufanismo, da fanfarronice e megalomania pernambucana. Porque, afinal, o estado recebe vários elogios de ser o único, o melhor, o maior e o primeiro. Vale destacar esses trechos:
"Ufanismo tem uma função social superimportante de autoafirmação e de construção da identidade. Quem está embaixo quer ir para cima. E no discurso só se consegue isso levantando seu moral e dizendo que tudo o que você faz é maior ou melhor. É quando você diz, por exemplo, que a música de Chico Science é a melhor do mundo."
"Fanfarronice é quando a gente diz que o Recife é o lugar onde rios Capibaribe e Beberibe se juntam pra formar o Oceano Atlântico. Essa é uma ideia sofismática, que tem uma base lógica. Mas é uma lógica que é feita para causar uma resposta que não é verdadeira. É uma mentira."
"Megalomania é quando você quer ser maior do que é. O cara faz acreditando que é verdadeiro. É quando alguém diz que a Avenida Caxangá é a maior em linha reta do mundo. É algo patológico, que a gente cria. É uma macaquice que a gente utiliza pra rir da gente mesmo."
Essa reportagem me lembrou do livro A fundação francesa de São Luís e seus mitos, encontrado muito por acaso na melhor livraria da cidade (Leiamundo, no Jaracati Shopping). A gente comemora o aniversário da cidade em 8 de setembro de 1612 e se vangloria a única capital fundada por franceses. Mas a questão é: o que os franceses fizeram aqui? No dia da "fundação" foi apenas rezada uma missa em cerimônia da posse das terras. Além disso, não se sabe nem se os franceses tinham a intenção de construir a capital da França Equinocial aqui em São Luís. Nos dois anos que ficaram aqui, viviam em acampamentos. O próprio forte São Luís (que deu origem ao nome da cidade e hoje é o Palácio dos Leões, sede do governo) começou como uma estrutura improvisada que aproveitava os rochedos do local. A partir do estudo de documentos históricos e cartas, a professora Maria de Lourdes Lauande Lacroix (ufa!) mostra como os franceses passaram de invasores a fundadores da cidade na memória maranhense.
Ela aponta a crise econômica desde o final do século XIX como causadora de uma fuga orientada para a mitificação do passado: Tendo a perspectiva da "decadência" como matriz cultural e voltando-se para a definição dos traços da "singularidade" regional, as "elites decadentistas" construíram a imagem da capital evocando a Grécia clássica, pela utilização renovada do epíteto Atenas Brasileira, e a França moderna, através da mitologia da fundação.
Essa leitura me abriu os olhos pra maior contradição ludovicense: nos achamos pela fundação francesa e por nossos casarões portugueses com azulejos portugueses no nosso centro histórico traçado pelo português Jerônimo de Albuquerque, que expulsou os franceses daqui. Curioso que hoje Jerônimo de Albuquerque e o francês Daniel de La Touche, que liderou a invasão, se encontram num nos maiores cruzamentos por essas bandas da cidade. Nem o elevado da Cohama resolve mais o engarrafamento.
Também fiquei sabendo que por muito tempo o aniversário da cidade sequer era comemorado. A primeira festa grande foi a dos 350 anos. Depois disso, a data ficou esquecida por algum tempo, sendo relembrada pelos jornais de quando em quando. O aniversário só foi lembrado religiosamente a partir de 1984. Ano que vem a cidade completa 400 e já prometem um amistoso da seleção brasileira contra a França. Veremos.
A minha teoria é que procuraram qualquer evento no dia 8 de setembro buscando um feriado prolongado. Porque, olha, esse feriado junto da Independência é ótimo.
"Ufanismo tem uma função social superimportante de autoafirmação e de construção da identidade. Quem está embaixo quer ir para cima. E no discurso só se consegue isso levantando seu moral e dizendo que tudo o que você faz é maior ou melhor. É quando você diz, por exemplo, que a música de Chico Science é a melhor do mundo."
"Fanfarronice é quando a gente diz que o Recife é o lugar onde rios Capibaribe e Beberibe se juntam pra formar o Oceano Atlântico. Essa é uma ideia sofismática, que tem uma base lógica. Mas é uma lógica que é feita para causar uma resposta que não é verdadeira. É uma mentira."
"Megalomania é quando você quer ser maior do que é. O cara faz acreditando que é verdadeiro. É quando alguém diz que a Avenida Caxangá é a maior em linha reta do mundo. É algo patológico, que a gente cria. É uma macaquice que a gente utiliza pra rir da gente mesmo."
Essa reportagem me lembrou do livro A fundação francesa de São Luís e seus mitos, encontrado muito por acaso na melhor livraria da cidade (Leiamundo, no Jaracati Shopping). A gente comemora o aniversário da cidade em 8 de setembro de 1612 e se vangloria a única capital fundada por franceses. Mas a questão é: o que os franceses fizeram aqui? No dia da "fundação" foi apenas rezada uma missa em cerimônia da posse das terras. Além disso, não se sabe nem se os franceses tinham a intenção de construir a capital da França Equinocial aqui em São Luís. Nos dois anos que ficaram aqui, viviam em acampamentos. O próprio forte São Luís (que deu origem ao nome da cidade e hoje é o Palácio dos Leões, sede do governo) começou como uma estrutura improvisada que aproveitava os rochedos do local. A partir do estudo de documentos históricos e cartas, a professora Maria de Lourdes Lauande Lacroix (ufa!) mostra como os franceses passaram de invasores a fundadores da cidade na memória maranhense.
Ela aponta a crise econômica desde o final do século XIX como causadora de uma fuga orientada para a mitificação do passado: Tendo a perspectiva da "decadência" como matriz cultural e voltando-se para a definição dos traços da "singularidade" regional, as "elites decadentistas" construíram a imagem da capital evocando a Grécia clássica, pela utilização renovada do epíteto Atenas Brasileira, e a França moderna, através da mitologia da fundação.
Essa leitura me abriu os olhos pra maior contradição ludovicense: nos achamos pela fundação francesa e por nossos casarões portugueses com azulejos portugueses no nosso centro histórico traçado pelo português Jerônimo de Albuquerque, que expulsou os franceses daqui. Curioso que hoje Jerônimo de Albuquerque e o francês Daniel de La Touche, que liderou a invasão, se encontram num nos maiores cruzamentos por essas bandas da cidade. Nem o elevado da Cohama resolve mais o engarrafamento.
Também fiquei sabendo que por muito tempo o aniversário da cidade sequer era comemorado. A primeira festa grande foi a dos 350 anos. Depois disso, a data ficou esquecida por algum tempo, sendo relembrada pelos jornais de quando em quando. O aniversário só foi lembrado religiosamente a partir de 1984. Ano que vem a cidade completa 400 e já prometem um amistoso da seleção brasileira contra a França. Veremos.
A minha teoria é que procuraram qualquer evento no dia 8 de setembro buscando um feriado prolongado. Porque, olha, esse feriado junto da Independência é ótimo.
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